Ansiedade e crises de pânico: meu relato

O começo de tudo


Era fevereiro de 2020, como sempre, cheguei no trabalho e liguei meu computador, não estava me sentindo bem, achei que seria fraqueza (já que desde criança tenho anemia) nessa época, sentava ao lado de uma enfermeira extremamente experiente, e falei pra ela: "Rose, eu acho que estou passando mal, meu coração está batendo muito rápido"


Prontamente ela me orientou à ir ao pronto socorro do hospital em que trabalhávamos, como não tenho convênio médico, pedi com toda humildade para o técnico de enfermagem que estava no posto verificar meus batimentos.


O número estava em 157 e aumentando, para quem não entende, batimentos cardíacos variam de 50 a 90 batimentos por minuto. aparentemente eu estava me sentindo até normal, mas uma sensação muito estranha, como se meu espaço que comporta o coração estivesse se diminuindo.


Fui à uma unidade de saúde, andando, normal, e ao passar pela triagem, minha pressão e batimentos continuavam altos, e agora com um acréscimo de dor de cabeça insuportável. A enfermeira me classificou como paciente de risco, e , ao pegar um marca-texto vermelho e riscar o adesivo com minha identificação, dei uma apavorada.


Lembrei que sou enfermeira por formação, e que os atendimentos em pronto atendimento são classificados por gravidade, vermelho era a pior delas. PRONTO! achei que estava morrendo, acho que em menos de dois minutos um médico (bem jovem diga-se de passagem) me deitou na maca, fez todo o exame físico, solicitou exames laboratoriais, e ao conversar comigo me disse que estava com algumas suspeitas, e que a primeira delas era infarto.


OI?! Como é?!


Sim foi isso que falei pra ele, sinceramente quase ri quando ouvi. Falei para o Dr. que praticava exercícios todos os dias e me alimentava até bem, 25 anos e infartando? Misericórdia!


Ao falar que praticava exercícios, ele disse que meus batimentos deveriam ser mais baixo que a média. Então pensei: LASCOU!, comecei a chorar (juntando o fato da técnica de enfermagem não conseguir puncionar a minha veia com uma agulha gigante, que estava doendo horrores).


Depois de um tempo, fiquei tentando me acalmar, e quando os exames ficaram prontos, vimos que minhas enzimas estavam normais, nada de infarto. Mas os batimentos ainda estavam muito altos. O médico (extremamente solicito e educado) começou a me falar sobre crises de ansiedade e de pânico, e para ser sincera tive um pouco de dificuldades de aceitar que eu estava passando por aquilo.


Sabe quando uma pessoa está falando algo e você começa a desfocar da voz dela, até se tornar só um sussurro distante. Mesmo assim, ele solicitou uma bateria de exames para descartarmos problemas cardíacos.


Negação


Tá, eu sempre fui centrada, responsável, cuidadosa, curiosa, quieta, calma, e todos esses adjetivos que a gente usa em si mesmo quando não tem certeza do que é. Simplesmente não queria aceitar que estava com ansiedade, o médico me passou para um psiquiatra, e sabe o que eu fiz com o encaminhamento? Esqueci que existia, e fiquei vivendo normalmente na minha bolha de mulher perfeita fada sensata sem defeitos. O que mais me impressiona hoje, é saber que mesmo formada em enfermagem, trabalhando num hospital, eu não conseguia ver o que estava bem na minha frente, eu estava quebrando aos pouquinhos.


E sabe o que era o pior? estava mentindo pra mim mesma falando que estava tudo bem, que eu já estava bem. Ah Coitada.


Nova crise, mais forte, incontrolável


De fevereiro à novembro, tive pequeninos acessos de ansiedade, crises de dores de cabeça e compulsão alimentar, sempre em episódios sutis, que quase não percebia. Mas um dia tudo mudou.


Por volta das 19:00 ainda estava no centro cirúrgico do hospital (na época meu local de trabalho), comecei a sentir uma sensação estranha no estômago (mais uma vez achei que era fome) e resolvi ir pra casa.


Na intenção de economizar dinheiro, fui de ônibus, nos primeiros minutos eu estava me sentindo bem, só meio esquisita sabe, meio "acelerada".


Começou com uma agonia da música que estava ouvindo no fone de ouvido, não consigo explicar, mas a música estava me dando uma sensação muito ruim no estômago, logo após meu cabelo (então na altura dos ombros) estava me dando agonia, depois o meu corpo todo ficou irreconhecível, como se não fosse meu, junto com a tontura e falta de ar, sentia repulsa pela roupa tocando a minha pele, dos meus dedos dentro do meu sapato, do meu anel na mão esquerda que nunca tirava desde meus 15 anos.


Por instinto, fiquei em pé, estranho né, a pessoa tá tonta e quer ficar em pé?! Olha as ideias! Mas a impressão que eu tinha era que se ficasse mais um segundo sentada iria morrer. Estava sozinha, fiquei raciocinando de quanto tempo levaria pra chegar no terminal central, ou se pedia um uber antes. Minha mente estava um turbilhão, as informações passavam tão rápido que por um momento coloquei as mãos na cabeça na esperança disso organizar meu cérebro.


Chegando no terminal, não havia atendimento médico, então a minha única opção era tentar ir pra casa. Ao abrir o aplicativo, percebi que meus dedos não obedeciam meus comandos, minhas mão tremiam como nunca na minha vida. Havia de tudo, vontade de vomitar, tremores, falta de ar, e zero capacidade de falar.


Resolvi descer as escadas e ir para o primeiro piso do terminal (onde tinha mais gente) e pedir ajuda, mas a voz não saía, sentei na beira da escada, e fiquei tentando controlar a minha respiração, eu achava que se conseguisse respirar direito, conseguiria ir pra casa. Mas ficou bem pior, junto com tudo que eu estava sentindo, veio uma sensação enorme de que eu estava morrendo (quem já tomou alguns tipos de medicamentos na veia sabe do que estou falando).


Caro leitor, eu sinceramente não consigo descrever à você a sensação em detalhes, mas tudo em mim me falava: " Andréia, você está morrendo", desde o meu cabelo passando nos meus ombros, até o peso da mochila nas minhas costas.

Tá, hoje eu sei que eu não estava realmente morrendo, mas vai falar isso pro meu cérebro que estava produzindo todos os sinais físicos característicos de perigo e ameaça. Rum.


Em meio a todo aquele desespero, e fazendo todo o esforço do mundo pra não começar a chorar, vi um rapaz que me inspirou um pouco de confiança, e falei pra ele que estava passando mal, e se ele poderia chamar o segurança. Quando o mesmo chegou, fez todo o processo de chamar uma ambulância e chamar meu esposo, não sei o porque, mas quando ele terminou de ligar pra todos e falar com o médico pelo telefone, eu senti que já não conseguia mais segurar o choro, quando olhei para o outro lado da rua, meu marido estava estacionando a moto, e não aguentei.


Desabei.


Chorava compulsivamente, chorava tanto que minha respiração piorou, não conseguia olhar pro meu marido, mesmo ele tentando me acalmar com todo o amor do mundo. Após alguns (e longos) minutos, como não conseguia andar, uma ambulância do corpo de bombeiros me levou para o hospital onde me deram um calmante forte que os meus batimentos batiam tão baixo a ponto de eu quase não conseguir sentir meu próprio pulso.


Já em casa, dessa vez resolvi me tratar pela primeira vez, mas precisava trabalhar no próximo dia, então me esforcei para dormir. Não falei pra ninguém no trabalho sobre isso, pois achei que as pessoas iriam rir de mim pelo fato de ter ido para o hospital com uma ambulância por causa de uma crise de ansiedade.


Mas dali em dois ou três dias tive outra crise quase incontrolável, mas antes que ficasse pior, corri para o hospital (sim eu ainda estava achando que poderia morrer) e lá a médica me afastou do trabalho por uma semana para que eu pudesse começar meu tratamento.


Tratamento e esperança


A médica psiquiatra, uma mulher de trinta poucos anos, maravilhosamente bem vestida, depois de examinar, fazer anamnese (questionamento do paciente) e passar medicamentos para ansiedade e depressão, bem como me encaminhar para tratamento psicológico, pegou na minha não, olhou bem fundo nos meus olhos, esperou um pouquinho e deu uma respirada (deu até tempo de ver as variações de verde e os traços de heterocromia dos seus olhos) dizendo: " você vai ficar bem, tem que ter fé nisso, os medicamentos vão ajudar, você vai na psicóloga sempre que marcado, mas você vai ficar melhor, não desiste."


Senti uma profunda conexão com ela, apesar de ser a primeira vez que nos víamos. Saí de lá com dois medicamentos controlados que posteriormente iriam me dar muitas dores de estômago e falta de apetite. Mas nada que não pudesse ser tratado.


Os dias seguintes não foram diferentes dos que eu estava vivendo. Me sentia sozinha, incompreendida, insignificante e acima de tudo vazia. Era uma sensação muito estranha, havia extremos de euforia (que depois de alguns meses percebia a diferença entre felicidade e euforia), e tristeza, e havia momentos em que não sentia nada. Aos poucos, as dicas e aconselhamento da psicóloga juntamente com as medicações e o exercício físico, mudavam gradativamente meu estado de saúde mental.


Quando ficava feliz, sentia a felicidade, e a tristeza não era mais aquela escuridão infinita, era só tristeza. Apesar de as vezes ainda ter algumas crises de ansiedade (ainda estou em tratamento) aprendi a reconhecer os sinais psicológicos e corporais, que me ajudam a prevenir, e caso necessário, controlar as crises. Com a ajuda do meu maravilhoso esposo, que sempre inventa métodos para me ajudar nos piores momentos, e com o reconhecimento da minha condição, passei a melhorar um pouquinho todo dia.


Reconhecimento


É impressionante como mesmo cheios de informação ainda temos preconceitos e ignorância com as doenças da mente, depois dos meus episódios, notei que já havia acontecido comigo antes, mas associei à TPM, crises temperamentais da adolescência entres outras inúmeras desculpas para não fazer com que ninguém se preocupasse comigo. Externamente sempre estava bem, sorridente e alegre, internamente, suprimia sentimentos e traumas.


Hoje vejo que é impossível ser feliz (ou triste) o tempo todo, e que a pior prisão, é a da mente. Nos meus piores momentos, pensava que com meu conhecimento de anatomia humana, poderia facilmente acabar com aquela sensação, mas com a Graça de Deus, não fui capaz de fazê-lo.


Devemos passar a atentar para os pequenos sinais, uma crise de choro sem motivo aparente em um adolescente de 17 anos que trabalha das 07: 00 as 17:00, faz cursinho das 17:30 as 09:30 e estuda no restante da noite não é normal. Pensamentos desconexos, extrema falta de concentração e pouquíssima socialização não são normais em um adulto de 25 anos.


Cuidados


Hoje, após todo o período mais difícil, passei a cuidar mais de mim, é o tal do autocuidado que tanto falam e poucos praticam. Passei a seguir o seguinte mantra pessoal:


  • Beleza, eu não tô bem, não preciso sair por aí fingindo sorriso;

  • Não preciso fazer o que não me sinto confortável só para agradar outros;

  • Posso dizer não sem achar que estou ferindo os outros;

  • Minha saúde mental e física estão em primeiro lugar;

  • Para ajudar outros, tenho que me ajudar primeiro;

  • Perceber os sinais que meu corpo dá me falando para parar;

  • Obedecer a minha mente quando ela me falar que está cansada.

Entre os tratamentos e acompanhamentos algumas coisinhas fizeram muito efeito positivo: como uma semana de detox de redes sociais. Eu tenho um sério problema de me inferiorizar mediante outros, então todos aqueles que eu sentia que me deixavam para baixo, ou que não acrescentavam nada para mim, exclui das redes (sim isso inclui familiares e amigos). Depois desinstalei todos os App's de redes sociais do celular e marquei um alarme para poder voltar a ver.


Veja, não há problema nenhum nas redes, mas no meu caso, acredito que não ajudava no meu tratamento o fato de ficar bombardeada de informações a cada vez que pegava o celular nas mãos. No final desse processo de detox, se senti bem leve, e até voltei a seguir algumas pessoas, mas com a mentalidade diferente, sem inveja, sem sensações ruins, sem me sentir inferior.


Fui diagnosticada com Transtorno de ansiedade generalizada, e, segundo a literatura, é quando você vê perigo onde não há, como se a preocupação fosse desproporcional ao que realmente está acontecendo, a vida se torna um constante estado de pânico. Como se o seu corpo estivesse sempre em alerta, causa